Sentimos no fundo da alma que algo forte se move em nosso tempo. A cultura que nos acostumou a ver apenas o que está diante dos olhos, como se Deus estivesse distante ou até ausente, vai se esgotando — é o fim do sentimento de ausência de Deus. Nasce, então, uma sede profunda de transcendência: não mais procuramos o Sagrado só em ritos distantes ou templos fechados, mas passamos a reconhecê-lo na mística do comum — no cuidado com quem sofre, na partilha do pão, na paciência com quem nos é próximo, na transfiguração do nosso dia a dia. A fé deixa de ser formalismo vazio, feito só por hábito, para se tornar experiência viva e transformadora, como nos ensinaram os grandes mestres espirituais.

O ser humano também se redescobre: não é mais aquele isolado, como um “sujeito” diante de um mundo transformado apenas em “objeto”. Entendemos que natureza, cultura e espírito são dimensões unidas — vivemos conectados uns aos outros, ao cosmos e ao próprio Deus, buscando sempre o sentido mais profundo da nossa existência, como imagem e semelhança do Amor Infinito.
Essa palavra continua viva e caminha para a sua plenitude, especialmente agora, quando crises e perguntas nos cercam. A crise de fé que se vive hoje não é o fim da fé, nem o fim da humanidade, mas a busca do seu verdadeiro sentido — que se identifica com a sua mais pura essência.
Há dois mil anos, Jesus de Nazaré entrou na sinagoga, como conta o Evangelho de Lucas, e pegou o rolo da profecia de Isaías. Leu com voz firme: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e recuperação da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos e proclamar o ano aceitável do Senhor”. E então disse, para espanto de todos: “Hoje se cumpriu esta Escritura aos vossos ouvidos”.
Nesse momento, Ele inaugurava um tempo novo. Um tempo onde não se pergunta mais “onde moras?”, como se a presença de Deus ou a nossa verdadeira morada estivessem presas a paredes ou limites. Como dizia Dom Helder Câmara com sabedoria que chega ao coração simples: “Eu moro dentro de Deus, passeio, ando dentro de Deus!”. Nossa casa é muito maior do que imaginamos — é a própria imensidão do Amor. Jesus já anunciava isso quando falou da adoração em Espírito e Verdade: não limitada a lugares ou regras rígidas, mas nascida da alma, verdadeira como a própria vida.
Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre! Mas as estruturas humanas, as formas antigas e as maneiras de organizar o que é santo não são imutáveis — elas existem para servir a Cristo, que é o Cabeça de todo o corpo, e não para se colocar no Seu lugar. Tudo deve convergir para Ele, para que sejamos em comunhão plena com o Pai e o Espírito Santo: uma Igreja viva, aberta, que não se contém entre quatro paredes. Como o Papa Francisco nos lembra com força: é a Igreja em saída, que vai ao encontro, não se acomoda, cuida da Casa Comum — nossa terra, nossa vida compartilhada — e vive e espalha a economia solidária, onde reina a partilha e ninguém é descartado.
Quando falamos de demolir o templo de pedras para firmar a Igreja viva, não é destruição, mas cumprimento pleno! O templo verdadeiro é o Corpo de Cristo — e nós, unidos a Ele, somos essa construção que permanece para sempre, contra a qual nem as portas do inferno poderão prevalecer. Não temamos os tempos de aridez, as esperas que parecem longas ou as renovações que o Espírito opera. Uma estação de silêncio não é vazio, mas fecundidade; somos chamados a acolher a beleza que é ao mesmo tempo tão antiga e tão nova — sempre renovadora.
Para todo aquele que cuida da vida em sua expressão mais profunda, para o professor que acende luz, para o pai e a mãe que constroem a família com amor, para a juventude que busca verdade e caminho: esta é a nossa hora. Viver a fé não como memória parada, mas como morada eterna: andar, viver e existir em Deus, cuidando uns dos outros e da criação, até que tudo seja plenamente Luz e Amor.
Oração
Deus, nosso Lar e nossa Morada,
obrigado porque em Ti vivemos, nos movemos e existimos.
Agradecemos por Jesus Cristo, que inaugurou o tempo da Tua proximidade,
e por Seu Espírito que faz novas todas as coisas.
Dá-nos coração simples e profundo:
para Te encontrar no dia a dia,
para viver como Igreja que sai ao encontro,
para cuidar bem desta Casa Comum que nos deste,
e partilhar com justiça e amor o que recebemos de Ti.
Abençoa todo o cuidado com a vida em todas as suas expressões:
faz de todos nós pedras vivas do Teu Reino,
firmes na fé, alegres na esperança,
capazes de acolher a beleza que não passa.
Quando vier a aridez ou a dúvida,
lembra-nos que habitamos em Ti,
e que nem o mal nem a morte podem vencer o Teu amor.
Em comunhão com Cristo, Cabeça de tudo,
e com o Espírito que renova a face da terra,
cantamos a Tua beleza hoje e eternamente.
Amém.







